ACREDITEM! – professor Nascimento de Moraes Filho está vivo!

Por João Batista do Lago

(dedico este postagem, in memoria, ao poeta José Nascimento de Moraes Filho, falecido em 21/02/2009)

Transcorria o ano de 1922!

O país comomorava o centenário da Proclamação da Independência do Brasil, ocorrida no dia 7 de setembro de 1822; e também, a aclamação de D. Pedro I como Imperador, a 12 de outubro.

O Estado do Maranhão em 1922, (e consequentemente na década de 20), portanto 100 anos após a Independência do Brasil, fora governado pelo então presidente Urbano Santos da Costa Araújo (conhecido no Maranhão e no Brasil como Urbano Santos); houvera um estádio de ebulição em todos os campos das atividades: na política respingara no território maranhense a fundação e criação do Partido Comunista; repercute os fuzilamentos de quatro lavradores, assim como as ações político-sociais do agricultor e espírita Manoel Bernardino de Oliveira, apelidado pelos jornais de então de Lenine maranhense; não menos importante reverbera a Coluna Prestes; também a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana respingara no Maranhão.

Pois bem, é no meio desse contexto historiográfico que nascera José Nascimento de Moraes Filho, que, diga-se desde sempre, viera ao mundo com o gene paterno do poeta, romancista, cronista e jornalista José Nascimento de Moraes (pai), que também fora presidente da Academia Maranhnense de Letras e professor do Liceu Maranhense, onde lecionara para alunos como o jornalista, escritor e poeta José Sarney, assim como também para o escritor, ensaista e poeta Ferreira Gullar. Nascimento de Moraes (pai), fora casado com Ana Augusta Mendes Moraes. O casal tivera sete filhos: Nadir, Raimundo, João José, Ápio Cláudio, Talita, Paulo e (o nosso) José Nascimento de Moraes Filho.

Para entender melhor (o nosso) José Nascimento de Moraes Filho, aos meus olhos, torna-se indispensável traçar um panorama da sua ascendência paterna. “Trata-se, então, de dispor os leitores a conhecer (…) um professor negro (…) que marcou espaço na imprensa maranhense (…) manifestando-se por meio de contos, poesias, crônicas, além de, por muitas vezes, ter-se envolvido em polêmicas literárias e raciais. Era um defensor da promoção, pelos poderes públicos, da escolarização para os pobres, e constantemente debatia os problemas políticos, sociais e educacionais maranhenses. Foi considerado, durante o Estado Novo, o inspirador da criação de um tipo escolar exclusivo para as crianças pobres, denominado “escola dos pés descalsos” (…)” – (Mariléia dos Santos Cruz – Imperatriz – MA).

NASCIMENTO DE MORAES E EU

Minha amizade com Nascimento de Moraes dá-se a partir do ano de 1978, quando retornara de São Paulo para São Luis, para integrar a equipe de jornalistas da Secretaria de Comunicação Social – SECOM, no Governo João Castelo. Ele me fora apresentado pelo então deputado estadual e líder do governo, José Bento Nogueira Neves (itapecuruense de boa cêpa), que fora o grande responsável pelo meu retorno (naquele período) ao Maranhão. E, de pronto, durante a apresentação, Nascimento de Moraes, com aquele vozeirão metálico que só ele tinha na ilha, tascou: “- Bento, este é o teu mais novo pupilo comunista?”. Bento Neves soltou uma gargalhada e entrou no prédio da Assembleia Legislativa (ainda na rua do Egito), deixando-me a sós com o “velho professor”.

Ora, em 1978, ainda vivíamos o princípio do ocaso da Ditadura Militar brasileira, que dera um golpe de estado e se locupletara das instituições governamentais e se instalara no governo central da nação. Neste período, João Castelo Ribeiro Gonçalves, que se tornara governador do estado, pela “porta da exclusão” – (muito embora muitos afirmem que ele seria uma indicação de Sarney, o que Castelo negava enfaticamente) -, pois, o então senador José Sarney estaria às turras com o governo ditatorial militar central e, portanto, impedido de fazer quaisquer indicações, fizera a Secom divulgar, com estardalhaço, a instalação da Alcoa (1980).

Aos poucos fora me acostumando à verve indomável do “velho” professor Nascimento de Moraes. Mas não somente isso. Em verdade eu fora sendo encantado, cada dia mais, e assim me tornando um discípulo do mestre, a quem admirava com paixão, a quem procura ouvir diariamente, ao meio dia, na entrada da praça Benedito Leite ou nos finais de tarde, na praça João Lisboa, entre um cafezinho e outro… E muito do que sei, hoje, resulta daquelas conversas sem quaisquer parâmetros de superioridade sobre nós que o ouvíamos ou sobre qualquer pessoa que dele se aproximasse.

II

NASCIMENTO, O GOVERNO E A ALCOA

O rompimento definitivo entre o professor Nascimento de Moraes e o governo João Castelo dá-se em razão da instalação de uma unidade industrial da Alcoa, no interior da Ilha, às margens da BR-135, única via de acesso à capital do Maranhão. O até então escritor, folclorista, poeta e professor José Nascimento de Moraes Filho, apesar de posturas libertárias em prol dos desvalidos, dos pobres, das injustiças sociais, políticas, econômicas e culturais – públicas ou privadas, manifestadas em praças públicas ou através de jornais, revistas, livros, panfletos, palestras, entrevistas, seminários, etc. – era uma pessoa de convívio com todos de sua terra bem amada: São Luis do Maranhão.

Contudo, a partir do instante em que aquela voz metálica passara a bramir contra a instalação da Alcoa, contra os deputados estaduais da base do governo, contra a elite e a burguesia, contra industriais e comerciantes, conta trabalhadores que apoiavam aquela iniciativa governamental, contra vereadores, contra escritores e poetas, contra professores, Nascimento de Moraes foi sendo paulatinamente isolado em sua ilha natal. Mas ele não se intimidara! E para demonstrar claramente para todos que sua luta não era uma espécie de samba do crioulo doido ou de um Sancho Pança quixotesco dos trópicos, criara e fundara uma entidade denominada Comitê da Ilha de São Luis (1979-80 – se não estou enganado), que tinha por objetivo fundamental reunir pessoas capazes de pensar aquele momento sem o viés de um modelo ideológico-político-partidário. Mas, pensar São Luis e o Maranhão, a partir de uma matriz “ambiental” – ampla, geral e universal.

Ocorre que, nem mesmo isso, arrefecera a animosidade das forças dominantes – políticas, econômicas, sociais e culturais. E isso se dera, fundamentalmente, porque Nascimento de Moraes pressentira e previra que, ao criar o “Comitê da Ilha”, este, passaria a ser abordado e assediado por todos os entes de poder, de todas as categorias, no sentido de cooptá-lo. “Se nós transformamos o “Comitê” em uma entidade legal eles nos trituram, nos aniquilam…”, dissera certa vez, com aquela voz de Tupã, rasgando a majestade dos ventos contrapostos até atingir definitivamente o outro lado da Ágora de João Lisboa.

Assinale-se que essa tentativa de cooptação foi tentada de diversa maneiras. Uma delas revelo aqui e agora: em certa oportunidade (não sei precisar a data, mas ocorrera dois ou três meses antes da greve geral dos estudantes), em uma reunião realizada no gabinete do governo, onde se encontravam presentes o governador João Castelo, o chefe da casa civil, José Burnet, o secretário da Secom, Arimatheia Athayde, o jornalista Nonato Massom, o deputado José Bento Nogueira Neves, e eu (como jornalista responsável pelas anotações para posteriormente escrever a matéria), discutira-se a possibilidade de aprovar uma verba, via Assembleia Legislativa, destinada ao “Comitê”. Esta ideia fora apresentada por Burnet, com a justificativa de que assim “se calaria a boca do Nascimento”. A iniciativa de Burnet fora pronta e imediatamente rejeitada pelo deputado Bento Neves, sob o argumento de que “se fizermos isso, Moraes, virá com mais argumentos contra o governo”. Esta reunião resultara em nada.

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