Sérgio Habibe 70 anos: “eu não procurei a música, ela é que foi me levando”

Por Eden Jr. (Economista e Relações Públicas) – especial para O Estado do Maranhão

Como não é tão incomum nos tempos de hoje, ele alcança, neste sábado dia 31 de agosto, os 70 anos cheio de vitalidade e de projetos. Sérgio Roberto Uchôa Habibe (São Luís/MA, 31/08/1949), o Sérgio Habibe, músico e Relações Públicas, filho da costureira Hilda Habibe (falecida em 2004) e do comerciante Ruy Habibe (ainda lúcido do alto dos seus 107 anos), é autor de um notável acervo de composições. Sua obra está inserida no que de mais representativo foi feito na música popular maranhense a partir das três últimas décadas do século XX.

As canções de Habibe, por terem como matriz os ricos folguedos populares, o magnífico patrimônio arquitetônico colonial e a natureza deslumbrante de São Luís, se incorporaram de forma irrevogável à cultura ludovicense. O artista integra a exuberante geração dos anos setenta, que deu início à popularização da música produzida no Estado, a partir da combinação de elementos da cultura popular com melodias e letras mais sofisticadas.

Habibe também é um dos autores, juntamente com Papete, César Teixeira, Josias Sobrinho e  Ronaldo Mota, do antológico disco “Bandeira de Aço” (1978), que veio a se tornar referência e divisor de águas da música local. É um dos fundadores do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) – verdadeira usina de criações e experimentalismos – que no início dos anos 70 impulsionou uma nova geração de artistas das mais diversas áreas. No Laborarte compôs trilhas para espetáculos teatrais e desenvolveu pesquisas sobre a nossa cultura popular.

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“Eulália”, “Ponteira”, “Panaquatira”, “Cavalo Cansado” e “Dia de Será”, entre tantas outras obras, marcam o inconsciente afetivo dos maranhenses, e, seguramente, fazem parte do repertório daqueles que têm contato, mesmo que de modo eventual, com a sua formidável produção musical.

Habibe é amante do futebol, torcedor do Maranhão Atlético Clube, do América do Rio e do São Paulo – este último ele acompanha com mais assiduidade –, pescador por hobby, apaixonado pelas praias da Upaon Açu, nascido na Rua de Nazaré e morador do Olho d`Água, violonista e flautista. Apresentou suas composições em importantes palcos do Brasil e do mundo, como: Teresina, Belém, Fortaleza, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Vila Velha, na Universidade Cornell (Nova Iorque) e em Paris – além de São Luís e Rio de Janeiro, claro.

Sempre simpático e cativante, com uma forma de conversar suave, em um papo que flui em direção ao infinito, e não se sente o passar das horas, Sérgio relata os pontos essências de sua trajetória.

O despertar: “Sérgio Roberto, canta uma música pra mim”

“Lembro de dois momentos que me levaram ao interesse pela música. O primeiro, em 1954, eu garotinho, minha família fez uma casa no Olho d`Água, no Jardim Paulista. Aí a Tia Iete, ia cantando nos passeios que fazíamos do Olho d`Água para o Araçagy e sempre ela dizia: ‘Sérgio Roberto, canta uma música pra mim’. Então íamos cantando juntos. À noite, Tia Iete fazia tipo um ‘momento musical’, eu subia num banquinho e cantava músicas, por exemplo de Cauby Peixoto: ‘o amor é uma pérola rara…’ [A Pérola e o Rubi] e mandava ver.”

“O outro, foi quando comprei um violão, já adolescente. Eu não sabia afinar o instrumento e passei uns três meses tocando com ele desafinado. Um dia meu pai, Ruy Habibe, que tocava cavaquinho, me falou: ‘se tu continuares a tocar violão desse jeito, tu nunca vais aprender música’. Papai pegou e afinou o violão. Eu tomei um susto, porque veio um outro som, abriu uma luz. Aí, definitivamente, começa meu interesse pela música.”

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O início: “a carreira começa aí, com shows em teatros e bares de São Luís”

“Eu não procurei a música pra seguir carreira, ela é que foi me levando. Comprei meu primeiro violão aos 15 anos, em 1964, e logo comecei a pegar aulas com o professor ‘Custodinho’. Lá pelos anos 1968/1969 surgiram os primeiros festivais de música em São Luís. Fui finalista do Primeiro e do Segundo Festival de Música Popular Brasileira no Maranhão, com as composições ‘Fuga e Antifuga’ e ‘Cavala Canga’, respectivamente. Nessa onda, intensifiquei a minha produção musical. Então, profissionalmente, a carreira começa aí, com shows em teatros e bares de São Luís. Até porque comecei a ganhar dinheiro e me tornei profissional.”

Idas e vindas: “vou pra uma temporada no Rio de Janeiro”  

“Por volta de 1971/1972, vou pra uma temporada no Rio de Janeiro e faço o primeiro show na cidade, no Teatro Opinião, com o Grupo ‘Mostração’ – composto por mim, Inês Perdigão, Cláudio Valente, o ‘Popó’, e ‘Papa Léguas’. Em 1974, novamente no Rio, vou estudar flauta transversa e violão clássico com João Pedro Borges na escola ‘Pro-Arte’. Nessa ocasião, dei aulas de flauta no Rio. Aí tive a oportunidade de fazer shows, na Sala Funarte e no Teatro da UERJ, com os grupos Boca Livre, que gravou ‘Boi Danado’ e Céu da Boca, que gravou ‘Do Jeito que o Diabo Gosta’.”

“Nesse tempo, faço novamente teatro – atividade que sempre me interessou muito – com o Grupo Vento Forte, e viajo pelo Brasil, com um espetáculo baseado na obra de García Lorca. Fiz ainda parte da banda que se apresentava na peça ‘O Santo Inquérito’, de Dias Gomes, que tinha os atores Carlos Vereza, Dina Sfat, Ítalo Rossi  e Cláudio Marzo.”

“Depois dessa temporada, retorno pra São Luís e começo a trabalhar também com jingles publicitários, até pra abrir outra oportunidade de obter nova fonte de renda e diversificar a carreira.”

As influências: “o rumo é este aqui”

“No começou foi a Jovem Guarda, o Iê Iê Iê, depois vieram os Beatles – a minha banda preferida que escuto até hoje – os Rolling Stones e James Taylor. Mas o que realmente me arrebatou foi a Bossa Nova. João Gilberto e Tom Jobim, com aquelas melodias complexas e sofisticadas, eles entraram e disseram assim: ‘o rumo é este aqui’.

“O Edu Lobo e o Egberto Gismonti, também nessa linha de composições muito elaboradas e refinadas, me fizeram refletir: ‘eu tenho que melhorar muito’. O Boizinho feito anualmente pela dona Camélia, mãe do Chico Maranhão. O próprio Chico Maranhão e Nonato Buzar, entre os meus conterrâneos, também foram decisivos para a minha formação musical.”

O Laborarte: “foi uma expansão de horizontes”

“Fui um dos fundadores. O Laborarte foi uma expansão de horizontes! Era tudo muito voltado pra a pesquisa das manifestações folclóricas do Estado, por isso digo: ‘tudo que eu faço e fiz na música está relacionado a minha observação da cultura popular’.

“Na realidade, a gênese do Laborarte começa em 1968, numas salas anexas ao Ginásio Costa Rodrigues, comigo, Tácito Borralho, César Teixeira, Regina Telles, entre outros. Quando foi pro o casarão da Rua Jansen Muller, no começo dos anos 70, formaram vários departamentos: fotografia, música, teatro, dança… Eu cuidava do núcleo de música, junto com o César Teixeira e o Josias Sobrinho. Se o Laborarte ia fazer um espetáculo, de dança ou teatro, nós fazíamos a música. E se nós íamos fazer um show, o Laborarte providenciava toda a estrutura, palco, cenário…”

Bandeira de Aço: “são músicas que não esquecemos”

“A história do disco ‘Bandeira de Aço’ começa com o Chico Saldanha, que morava em São Paulo, antes do lançamento do álbum, já conhecia as músicas que rolavam aqui em São Luís e apresentou elas ao Papete, que também estava em Sampa.”

“Quando Chico Maranhão veio gravar o disco ‘Lances de Agora’, em 1978, na sacristia da Igreja do Desterro, no qual eu tocava flauta, o Marcus Pereira, da gravadora de mesmo nome, conheceu um pouco dessas outras músicas que estavam sendo feitas aqui. Então o Marcus Pereira – que foi um grande divulgador do cancioneiro popular do país – a partir da amizade com Papete, produziu esse disco, nesse espírito de mostrar obras valorosas, que não tinham oportunidade de serem exibidas pelas grandes gravadoras.

“Um dos principais méritos do disco foi mostrar para os maranhenses músicas que nós fazíamos aqui, tendo como suporte o vinil, o que ajudou na divulgação e na popularização das músicas, que por sua qualidade, rapidamente fizeram muito sucesso no Maranhão e até no Brasil. São músicas que não esquecemos: ‘Boi da Lua’ [César Teixeira]; ‘Dente de Ouro’ [Josias Sobrinho], ‘Boi de Catirina’ [Ronaldo Mota] e Eulália [Sérgio Habibe]. E ainda teve a ‘sorte’ da Rádio Mirante FM estar sendo implantada na cidade, e rolou muito o LP, o que ajudou ainda mais no sucesso dele. O olhar sensível de Papete para a música do Maranhão e a forma de sua interpretação foram indispensáveis pro êxito do disco”.

A obra: “e tem muito mais coisas”

“Deixa eu ver se é possível lembrar rápido. O primeiro que gravei foi o compacto ‘Panaquatira’, depois participei das coletâneas ‘Pedra de Cantaria’ e ‘Arrebentação da Ilha’, fiz LPs com Hilton Assunção e Cláudio Valente, depois dois CDs, ‘Sérgio Habibe’ e ‘Marcas Indeléveis’ e mais recentemente o DVD ‘Correnteza’. E tem muito mais coisas.”

Quem gravou: “é muita gente bacana”

“De cabeça que eu lembre rápido… é muita gente bacana: Cláudio Pinheiro, Papete, Alcione, Rita Benneditto, Flávia Bittencourt, Maria Preá, Fátima Passarinho, Nonato e Seu Conjunto, Boca Livre, Céu da Boca, Doroty Marques, Orlandira Mato, Luanda e Cao Alves, …”

Obras marcantes: “a melhor música eu ainda vou compor”

“Eu gosto de um CD, que eu estou dentro da água, ali estão as pérolas da minha obra, foi bem gravado, bem cantado, bem arranjado, e como eu sou um virginiano chato pra chuchu tem que ir e voltar a música várias vezes até eu dizer que está perfeito.”

“A melhor música eu ainda vou compor [risos]. Mas tem ‘Eulália’ é uma canção que eu gosto muito. ‘Fuga e Antifuga, que foi do primeiro festival. ‘Panaquatira’ que é uma composição inesquecível. E várias outras…”.

São Luís: “Eu já xinguei, disse que ia embora… mas sempre volto”

“A cidade está dentro de mim, como eu estou dentro da cidade. Pescando um pouco de Ferreira Gullar. Tudo que se reflete na minha música está associado com São Luís. Eu já xinguei, disse que ia embora, que não voltava mais, mas sempre volto…”.

“O conjunto da ilha me atrai, eu sou muito ligado à natureza, às praias, à cultura popular, à história. A cidade me reporta a um lugar que eu vivi, que eu nem sei se estava lá. Esta cidade é a minha cidade. Eu nasci para morrer aqui.”

O Caymmi que há em mim: “é que eu sou muito crítico”

“Eu tenho essa preguiça, que as pessoas dizem que é a preguiça baiana. Mas eu acho que não é, até porque os baianos estão muito na frente. É que eu sou muito crítico. Dizem que é do signo de virgem. E às vezes isso não deixa que as composições aconteçam mais rápido. Mas como diz Ubiratan Sousa: ‘É pouco, mas quando coloca é muito legal’.” [risos].

Os 70 anos e o futuro: “se ainda tem a chama, você pode seguir em frente”

“As pessoas podem dizer que 70 anos é final de carreira, mas pra mim não. Ainda tenho aquela chama, aquela energia para compor. Lembrando que meu pai tem 107 anos. Então, por aí eu ainda vou dar muito trabalho [risos]. O meu projeto atual é o Songbook, que estou fazendo junto com Zezé Alves e Hilton Assunção. Vai ter as letras das músicas, as cifras, um painel da minha obra. Estou nas plataformas de música digital, no Spotify. Estou conectado. Eu estou compondo. Se ainda tem a chama, você pode seguir em frente.”

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